Coluna - O meu Rio

Dicas através do olhar dos psicanalistas

A equipe do comitê local está cuidando para que a organização do congresso da FEPAL esteja intimamente conectada ao seu tema e ao trabalho que a diretoria científica está construindo. Essa postura nos remete a construção de um congresso que leve em consideração o Rio de janeiro atual que ferve em diversidade, complexidade e intensidades em meio a sua permanente beleza e autenticidade.

Nesse espaço de dicas de locais de visitação pensamos em oferecer a leitura e o contato com o olhar que os colegas que vivem e trabalham no Rio têm do seu bairro e/ou local que possuem alguma conexão afetiva. Inspirados pela canção de Arlindo Cruz que descreve o seu bairro de Madureira, convidaremos, ao longo dos próximos meses que antecedem ao congresso, a escrita de colegas que vivem e circulam pelos diferentes bairros e locais da cidade descrevendo o seu lugar, o seu Rio.

Acreditamos que assim, poderemos apresentar a diversidade dos membros e analistas em formação cariocas, que hoje, vai além do reduto da zona sul da cidade e que marcam um exercício da psicanálise em conexão com a subjetividade daqueles que a exercem. Ao criar esse espaço queremos aproximar os colegas do Rio e os que vêm a ele desfrutar do congresso, ampliando e trazendo em destaque um Rio de Janeiro para além dos pontos turísticos sempre exuberantes e à vista em qualquer link da internet.

Viajar para um psicanalista é algo mais amplo do que “turistar”. A observação psicanalítica fina e atenta se beneficia quando nos permitimos explorar em nossas viagens, a íntima capacidade de se deixar atravessar pela alteridade e a diversidade que uma cidade como o Rio de Janeiro pode oferecer. Inspirados pela seção “Cidades Invisíveis” da Calibán, a publicação oficial da FEPAL, criamos essa coluna O meu Rio, onde apresentaremos o que os psicanalistas daqui gostariam de apresentar desse território tão surpreendente que é a nossa cidade, onde vivemos e trabalhamos.

O Meu Lugar - Arlindo Cruz

O meu Rio: O analista carioca indica

LA CARIOCA EN LA PLAYA: UM LEBLON COM PITADAS DE AMÉRICA LATINA

O meu Rio é pé na areia. É caminhar descalça na areia gelada de nosso tímido inverno ou mesmo pular aos saltos, de havaianas, para chegar num ponto mais perto do mar durante o alto verão. A praia é referência. E quando ali podemos ancorar, vivemos uma espécie de experiência condensada do ser carioca: observar tudo junto e misturado. O mar nos acompanha o ano todo e a praia é ponto de encontro, e desencontro, de nossa complexa cidade. É uma salinidade que convida ao pensar...

Na praia do Leblon, recomendo o La Carioca en La playa, quiosque que se localiza em frente à Rua Afrânio de Melo Franco. Ali se pode tomar um café da manhã delicioso após uma caminhada e mergulho, almoçar em mesas que ficam tanto no calçadão quanto na areia, tomar drinques deliciosos (recomendo o El faro), disfrutando de uma comida peruana em sintonia fina com a culinária carioca. Não raro, o por do Sol no Laca (assim conhecidos por seus frequentadores regulares) é deslumbrante! À noite, principalmente nos finais de semana, o quiosque oferece shows de jazz e rodas de samba com os melhores artistas cariocas, tanto os jovens quanto os já consagrados.

DELÍCIAS GASTRONÔMICAS

Num primeiro momento, penso logo em delícias gastronômicas. O restaurante Anna, no Jardim de Alá, além de uma decoração aconchegante, serve ótimos pratos de peixe. A confeitaria Torta e Cia. em Botafogo, tem doces deliciosos e a Absurda, no Jardim Botânico, é uma excelente opção. Para dar um caráter mais cultural, indico a Instituição Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho, que tem um acervo de arte excelente, além de um ambiente muito agradável.

A Lapa

Um samba pra cada canto da cidade. Este é o Rio de Janeiro e para a Lapa não poderia faltar!

Diz o verso que "enquanto a cidade dorme, a Lapa fica acordada". Verdade. Bairro boêmio do Rio de Janeiro, palco de muitas histórias, dos malandros e do samba, teve um período abandonado pelo poder público, mas começou a ser revitalizado pela ocupação cultural na década de 90.

Aos pés dos imponentes Arcos da Lapa e vendo passar o bondinho que leva à Santa Teresa, o bar Semente fez brotar de novo o samba e o choro na região. Tive o privilégio de viver esse momento, vendo chegar à cidade músicos fantásticos como o violonista Yamandu Costa, e acompanhando o despontar da diva Teresa Cristina nas noites cariocas, entre outros. Daí em diante as casas de samba se multiplicaram. Hoje, a Lapa ferve com todo tipo de música e manifestação cultural, na rua ou nos botequins, do clássico, na belíssima e reformada sala Cecília Meireles, ao popular, nos memoráveis shows do Circo Voador - um capítulo à parte - ou numa esquina qualquer, no melhor estilo democrático, característico do bairro.

Com sua localização central, a Lapa reúne diferentes tribos e moradores de todo canto da cidade e também turistas. É um choque de realidades, possibilidades e contrastes, um passeio pela história e a cultura, mas também uma vitrine de algumas mazelas da cidade.

MARACANÃ

O Maracanã, nome do rio assoreado que cruza o bairro da Tijuca, é o grande templo do futebol. Ídolos venerados e lendas sagradas do futebol o reverenciaram ao adentrar o gramado.

O Maracanã vibra no calor das torcidas e na visita ao museu que conta a sua história e documenta seus grandes e incontáveis eventos. Entre esses, os dribles de Garrincha, o milésimo gol do Pelé, o jogo Brasil x Paraguai que classificou a fabulosa seleção tricampeã de 1970 com incabíveis 180000 torcedores presentes (eu estava lá).

A primeira vez no Maracanã para torcer pelo seu time é memória marcante de um certo menino.

O Maracanã foi reformado, remodelado, repaginado. Diminuiu a capacidade de público, elitizou-se, mas ainda conserva muito da magia da infância.

BEM-VINDO À BARRA DA TIJUCA: O EQUILÍBRIO PERFEITO ENTRE MODERNIDADE E NATUREZA

A Barra da Tijuca é um bairro localizado na zona oeste do Rio de Janeiro, conhecido por suas belas praias e por ser uma área de alto padrão.

Esse bairro é reconhecido por seu desenvolvimento imobiliário acelerado nas últimas décadas, resultando em uma região predominantemente residencial e comercial.

O bairro possui uma infraestrutura completa, com diversos condomínios residenciais, shoppings, restaurantes, escolas e centros comerciais. Além disso, a Barra da Tijuca é famosa por sediar grandes eventos esportivos, Rock in Rio e as competições de surfe.

Com uma extensa faixa de areia, é um local muito frequentado por praticantes de esportes ao ar livre, como surf, stand up paddle e vôlei de praia. A Barra da Tijuca também conta com uma ampla oferta de lazer, como parques, ciclovias e campos de golfe.

A infraestrutura moderna da Barra da Tijuca oferece uma variedade de atrativos, atendendo às necessidades de seus moradores e visitantes. Além disso, o bairro é lar do Parque Natural Municipal Chico Mendes, uma preciosa reserva ambiental que proporciona oportunidades para atividades recreativas ao ar livre.

É um bairro moderno e cosmopolita, perfeito para quem busca qualidade de vida e contato com a natureza.

NITERÓI

Niterói, carinhosamente apelidada de "cidade sorriso", está situada a 13 km do Rio de Janeiro e conserva um charme à parte pelos ares de cidade pequena e pelas praias paradisíacas.

Dona das praias de Itacoatiara, Camboinhas, Piratininga e Itaipu, que são conhecidas por oferecer verdadeiros espetáculos no pôr do sol.

O Parque da Cidade de Niterói possui um mirante com uma visão panorâmica única das lagoas, praias oceânicas, bairros de Niterói, Baía de Guanabara em toda a sua extensão e do mar aberto até onde a vista consegue alcançar. Avista-se também a cidade do Rio de Janeiro com alguns de seus bairros e a Ponte Rio-Niterói. Sua vista panorâmica recebeu pontuação máxima no Guia Verde Michelin. O parque conta com duas rampas para a prática de voo livre, sendo muito frequentado pelos praticantes desse esporte.

Niterói é a segunda cidade do mundo com o maior número de obras do arquiteto Oscar Niemeyer (a primeira é Brasília), sendo o Museu de Arte Contemporânea - MAC o símbolo da cidade, patrimônio nacional e considerado uma das maravilhas arquitetônicas do mundo, além de ser um dos cartões-postais da cidade.

Viver em Niterói é ser abraçado todos os dias pela beleza da natureza e pelos encontros que uma cidade pequena proporciona aos moradores e visitantes

IPANEMA

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”… Ipanema ficou mundialmente famosa pela música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O doce balanço das moças na praia, o surfe no Arpoador, o futvôlei, o pôr do sol nas areias da praia (tradicionalmente, acompanhado por palmas no final) - tudo isso e mais um pouco fazem de Ipanema, desde os anos de 1960 até hoje, um símbolo icônico do Rio de Janeiro. Mas nem só de praia vive o carioca. Ipanema abriga a Livraria da Travessa, lugar cativante do bairro para adquirir (ou só folhear) livros e tomar um café em ambiente acolhedor. Ainda no circuito cult, temos o Teatro Ipanema, o Teatro Cândido Mendes e a Casa de Cultura Laura Alvim - vale conferir a programação. Se a fome bater, a cena gastronômica do bairro é de alto nível - destaque para os italianos Posì e Pici Trattoria; querendo algo mais boêmio, o Bar Lagoa (que tem também uma “filial” em quiosque na orla) cumpre papel no quesito de bons pratos tradicionais, acompanhados do chope tão desejado nas noites quentes do Rio. O domingo do carioca não pode deixar de contar com uma bela caminhada no calçadão da orla e, querendo um café da manhã à beira mar, o ARP Bar é excelente pedida, de frente pra praia mais charmosa e democrática do bairro: a praia do Arpoador. Fique até o pôr do sol, você não vai se arrepender!

PRAIA VERMELHA

De verdade não é um bairro geopoliticamente falando. É parte da Urca; sua porta de entrada. Refiro-me à Praia Vermelha, entre o Cara de Cão e o Morrinho de divisa com o Leme. Começa ali na Av. Pasteur, esquina com Venceslau Braz: onde hoje é o Campus da UFRJ, antigo Hospício Geral fundado no Império. Para mim e para a História ali nasceu a Urca. Pelos idos dos anos 20, século passado, a Praia mesmo era fechada por um quartel de ponta a ponta. Tratava-se de Zona militar, tendo ao redor um areal. Ali teve lugar a Intentona Comunista nos anos 30, fato que foi impulso para demolição do quartel e abertura da praia então ao público. Veio junto o bondinho até o Pão de Açucar, o Edifício dos Militares e outras unidades militares como o Forte São João no final da Urca.

Na década de 20 meu bisavô construiu ali quatro casas para seus quatro filhos, dando início ao bairro que depois se estendeu até o Forte São João, passando pelo ex Cassino da Urca e TV Tupi, parte da Praia da Urca. Trata-se de bairro residencial com muitos bons restaurantes. Atualmente o Restaurante da Urca, às portas do Forte, é cercado por multidão que se aglomera na murada admirando a mais linda vista do Rio: da ponte Rio-Niterói a direita e o Iate Clube do RJ a esquerda.

PEQUENA ÁFRICA

O cais do Valongo, também conhecido como Pequena África, merece ser visitado, pois para mim, estar neste lugar é sankofar, como dizia Abdias Nascimento, retornar o passado para ressignificar o presente e construir o futuro. O local figura como um importante espaço histórico e representativo do país. Trata-se de um dos sítios arqueológicos mais preservados da atualidade e representa a memória material dos africanos escravizados que chegaram ao Brasil. Sua coleção arqueológica, fruto das escavações no local, já apresenta 466.035 peças e destaca-se pela excepcional concentração de materiais associados à diáspora africana. Atualmente, o Centro de Referência da Celebração da Herança Africana representa, junto ao sítio arqueológico, um centro de acolhimento turístico e espaço de reflexão sobre a importância do legado dos afrodescendentes na cultura das Américas.

LARANJEIRAS

O Bairro das Laranjeiras na zona sul do Rio, difere de outros mais turísticos, onde passam “meninas cheias de graça a caminho do mar”. Talvez sua vizinhança com o Cosme Velho, morada do bruxo chamado Machado de Assis, lhe confira um quê reflexivo e convide a morar , professores, músicos, jornalistas e psicanalistas. Eu sou uma dessas psicanalistas que tem o privilégio de ser moradora de uma rua muito especial, a bucólica General Glicério, com seu conjunto de belos prédios em centro de terreno todos com nomes de cidades de Pernambuco, estado natal do construtor. A rua tem um clima de cidade do interior e aos sábados recebe uma feira livre e em sua praça abriga um Grupo de Samba e Choro, ritmo carioca, Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil. Ali você pode ouvir uma boa música, bebendo uma gostosa caipirinha.

LAGOA RODRIGO DE FEITAS

Lagoa Rodrigo de Freitas, ou apenas, “a Lagoa” é uma poesia da cidade. Podemos admirar o Cristo, o morro dois irmãos e a cadeia de montanhas que descansa no horizonte.

Se baixarmos o olhar, o espelho d’água reflete os bairros ao redor. Podemos apreciar o mangue e as aves locais.

A poesia se estende no movimento dos atletas remando no seu interior ou correndo e pedalando a sua volta.

O carioca frequenta a Lagoa. Se exercitando, passeando, se reunindo nos quiosques, aproveitando a boa gastronomia ou tomando drinks relaxantes. O gramado recebe aqueles que não se importam em sentar no chão, e quem sabe um piquenique improvisado? Os românticos gostam dos pedalinhos, e certamente, a lagoa já foi testemunha de pedidos de casamentos…

Como estava dizendo… a Lagoa é uma poesia da cidade…

MADUREIRA

Bairro conhecido como "Berço do Samba" Madureira apresenta patrimônios culturais materiais e imateriais riquíssimos onde se destaca a presença marcante da cultura negra com o Samba, o jongo e o baile charme. Destaque para as duas importantes escolas de samba que estão no primeiro time no desfile do Carnaval Carioca: Portela e Império Serrano.

Vale muito andar pelas suas ruas onde encontramos o segundo maior polo comercial do Rio de Janeiro onde o grande protagonista é o "Mercadão de Madureira".

A importância da memória que esse bairro trouxe na minha formação pessoal eu carrego hoje como psicanalista principalmente pela riqueza das relações humanas ali presentes. "O meu lugar" como diz a emocionante canção dedicada ao Bairro composta por Arlindo Cruz e José Mauro Diniz.

COPACABANA

Copacabana, carinhosamente chamada de "Princesinha do Mar", é realmente um ícone do Rio de Janeiro. Sua praia em formato de meia lua atrai visitantes de todo o mundo, enquanto o Forte de Copacabana oferece uma vista panorâmica deslumbrante da orla, com seus quiosques e a famosa Confeitaria Colombo, conhecida pelo seu café da manhã colonial. Nas ruas do bairro, a vida noturna agitada é evidente, especialmente no "baixo copa", repleto de bares e restaurantes interessantes. Além disso, o bairro do Leme complementa a experiência de Copacabana, oferecendo tranquilidade e vistas deslumbrantes do Morro do Leme a partir do Forte Duque de Caxias.

Leme e Copacabana são como dois corações pulsantes que batem no ritmo vibrante da cidade maravilhosa. É onde a brisa do mar se mistura com o calor humano, criando uma atmosfera única e acolhedora. Viver nesses bairros que são ricos em cultura, diversidade e vida amplia os horizontes e enriquece as experiências.

LARGO DO BOTICÁRIO

O Largo do Boticário é um oásis secreto no Rio, um refúgio nostálgico que encanta a todos os seus "descobridores". Está localizado no pequeno e histórico bairro residencial do Cosme Velho, onde moro e também trabalho. Esse bairro é um recanto de paz, muito verde e com lindas casas e marcado pela encosta do Corcovado, o morro mais alto da cidade, e também pelo Rio Carioca, o rio que forneceu a água para que a cidade crescesse durante 350 anos.

Um dos poucos lugares onde ainda se pode observar o Rio Carioca, rio ancestral já quase totalmente canalizado, correndo livre em meio a mata, é justamente no Largo do Boticário que fica a uma curta caminhada da estação do trem do Corcovado que nos leva até o Cristo Redentor, um marco turístico conhecido.

Basta entrar em uma ruela estreita, de paralelepípedos seculares, para desembocarmos nesse largo, com seus casarões em estilo neocolonial, onde viveu no século XIX um antigo boticário (farmacêutico) que deu o nome ao local. É um lugar mágico, cercado pela Mata Atlântica e uma atmosfera imemorial que inspira pintores até hoje. Quem quiser aproveitar mais tempo nesse clima bucólico pode tomar um cafe no charmoso hotel Jo & Joe inaugurado há pouco tempo.

JARDIM BOTÂNICO

Jardim Botânico é uma expressão viva da beleza e da cultura de nossa cidade. Com uma rica história e uma paisagem natural exuberante, este bairro encanta com sua atmosfera única e charmosa. Com suas ruas arborizadas e seus casarões históricos, o bairro exala uma aura de elegância, onde a arquitetura colonial se mistura com a contemporaneidade, criando um ambiente vibrante e inspirador. Além do parque Jardim Botânico, que serviu de inspiração para diversas letras de Tom Jobim e do parque Lage, o bairro abriga uma variedade de galerias de arte, espaços culturais, cafés acolhedores e lojas encantadoras. É um lugar onde as tradições se encontram com a modernidade, criando uma cena cultural pulsante e dinâmica.

Ter sido nascida e criada em um bairro tão bucólico trouxe ao meu olhar a necessidade da desaceleração do ritmo frenético da vida urbana e apreciação dos pequenos prazeres da vida.